Coisas Profundas e Nem Tanto

10/08/2004 23:10

AMOR DE GATO






Minha gatinha Hermione é uma gata adolescente. Com dois anos ainda tem comportamento de filhote. Quando não está dormindo aconchegada em algum canto quentinho (de preferência entre os cobertores, em cima de quem dorme embaixo deles) está carregando uma fita vermelha na boca e miando com cara de abandonada esperando que a gente pare o que está fazendo para balançar a fitinha de lá pra cá - e ela pular de lá pra cá tentando pegá-la.

Adora brincar de esconder, mesmo deixando o rabo comprido totalmente à mostra. Embarcamos na brincadeira só para não decepcioná-la e fingimos que não sabemos onde ela está. Quando quer uma brincadeira, digamos, mais radical, corre feito doida pela casa, escorregando e batendo a cabeça nos móveis, dando dois pequenos toquinhos com a pata em nossas pernas pra avisar que está querendo chamar a atenção.

Aliás, chamar a atenção é tudo o que ela quer. Vaidosa, adora mostrar que é fofa e linda. Se espreguiça em nossa frente deixando a barriguinha exposta para um carinho, que se não for feito rapidamente é cobrado com alguns miados chorões. Quando passo minhas horas lendo deitada em algum canto ela trata logo de deitar em cima de minha leitura, ou colocar-se entre mim e a tv caso eu esteja prestando atenção em algum programa.

Às vezes, em minhas horas tristes, tenho vontade de sumir e coloco a cabeça embaixo dos cobertores, tentando ficar ausente do mundo. Ela, que é sensível a qualquer movimento – mesmo aqueles do coração – faz de tudo para entrar no meu mundo escuro e quando consegue se aconchega próximo ao coração, ronronando suavemente, mostrando que não estou sozinha.

Também tenho raiva dela, como é comum em qualquer relacionamento. Já falei que espalhar a areia onde ela faz suas necessidades diárias não é muito educado, porque, apesar de inteligente, ela ainda não aprendeu a usar a vassoura. Quando preciso dar-lhe um banho deveria usar armadura, porque ela arranha, grita e se agita como se fôssemos matá-la e depois nos olha como se dissesse: “traidora, confiei em você e é isso o que recebo?”. Me dá raiva, mas a raiva dela deve ser maior. Acabo perdoando. E ela também.

É uma relação de amor verdadeiro, pois o que poderia ser falso entre um animal e um ser humano?...Quem perderia seu tempo em simular amor a um gato ou um cachorro?...E que gato ou cachorro seria capaz da esperteza tão sutil da falsidade? É um amor totalmente livre, onde dar e receber carinho é algo natural, espontâneo, livre de obrigações.

Basta um pouco de ração por dia e o bichinho está pronto para emprestar seu calor, sua amizade, sua energia de criança brincalhona. É uma troca verdadeira, como poucas que encontramos na vida.

Quem não tem um animal querido em casa não entende o que estou dizendo e comumente critica nossa dedicação a um simples bicho, um ser inferior. E mesmo gostando de animais também critico quem se ocupa mais da relação com os animais do que da relação com as pessoas que o cercam.

Critico, mas compreendo. Porque é imensamente mais fácil amar um animal do que uma pessoa. O animal é simples, exige pouco e nos dá muito, incondicionalmente. E as pessoas perdem tempo com sua matemática doida onde dar e receber faz parte de um cálculo que precisa, necessariamente, resultar exato.

E nunca é exato. Sobram restos, sobe um, desce dois e fica sempre a sensação de que erramos na conta, pulamos fatores, não conseguimos descobrir o valor do x. Com toda a nossa suposta inteligência não conseguimos nem mesmo identificar o problema, que dirá solucioná-lo. Amar alguém tão complexo como nós é entrar num jogo de espelhos, perdoar o que há de pior em nós mesmos que identificamos no outro, comprar uma briga e tentar sair com poucos ferimentos. É um risco. É uma aventura. É um desafio.

Difícil. Mais fácil amar um gato, uma galinha, um peixe-boi. Sim, amar um bicho é imensamente mais fácil.

O pior de tudo é que fomos dotados da necessidade de conviver com o nosso semelhante e dessa irritante capacidade de pensar. Coisa da qual os animais estão livres. Por isso correm soltos, livres, felizes...jogam-se na relva, pulam e abanam o rabo. Que inveja!

Aprender a amar é difícil, doloroso, exaustivo, mas parece que é o único caminho possível, é só o que temos. Talvez valha o esforço. Talvez seja melhor aceitar o desafio.

Vou aprendendo a amar amando minha gatinha, já que percebi que nessas questões, quanto mais simples eu tentar ser, melhor o resultado. E depois tento exercitar a simplicidade desse sentimento com as pessoas. Não tem dado muito certo, eu confesso, tenho tido mais tropeços que acertos, mas vou tentando. E pra quem não gosta de animais já vou dizendo: você não sabe a oportunidade de aprender que está perdendo por causa dessa sua alergia, mania de limpeza, intransigência, falta de humor. Se você fosse menos humano e mais bicho, seria um ser humano melhor.


enviada por Kapri






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