18/09/2004 00:16
"PALAVRAS, APENAS...PALAVRAS, PEQUENAS... ,
PALAVRAS, AO VENTO..."
Ultimamente tenho recebido e-mails, quase que diariamente, de uma pessoa que não conheço e que também não me conhece. Interessante é que não respondo a nenhum e mesmo assim ele continua escrevendo, descrevendo seu dia, me contando coisas engraçadas como por exemplo o que tem feito para se livrar de um short horrível com estampa de lua e estrelas que ganhou de uma amiga e que, de tão horrível, tem vergonha até de dar para alguém.
Fala de seus sonhos, compartilha banalidades, conta coisas da sua infância, do que espera da vida, do amor, das pessoas... e sempre termina me desejando um excelente dia, um ótimo fim de semana, que eu aproveite bem o feriado... Carinho puro, palavras inocentes, sentimento apenas, sem pretensão aparente.
Impossível ficar impassível. Ter alguém ali derramando doçura sem cobrar nada em troca é algo que, no mínimo, surpreende. Quando leio o que ele escreve penso em outros correspondentes internéticos que já tive. Aqueles do tempo em que eu ainda respondia aos e-mails. Se recebia algo que me parecesse uma provocação, respondia com meu sarcasmo, minha ironia nada inocente. Se o outro lado gastava alguns minutos filosofando sobre qualquer questão, banal que fosse, lá ia eu, sempre me achando mais esperta, dizer tudo o que já li , ouvi ou simplesmente senti sobre a questão até esgotá-la, reservando pra mim, sempre, a última palavra. Gastava meu verbo, empregava toda minha lógica, oferecia a profundidade dos meus sentimentos, muitas vezes de forma perigosa àqueles que se submetiam a entrar no jogo.
E era um mar de ilusões, palavras e mais palavras...meras palavras. Deixei-me iludir tantas vezes e iludi outras tantas...
Hoje apenas leio, deixei de fazer eco, parei de me mostrar através daquilo que escrevo. Como diz a Adélia Prado, escrever o que sente é uma forma de carregar bandeira, fardo muito pesado para uma mulher, essa espécie ainda envergonhada. Escrever, no meu caso, era também escancarar a alma e deixá-la descoberta, desnuda, para ser acolhida e cuidada, ou simplesmente massacrada. Não poucas vezes sobrou-me a sensação de ter-me exposto demais e a alma ficou ali, abandonada.
Sempre soube das minhas habilidades manipulatórias quando a arma é a palavra. Tenho realmente algum talento para isso. Usei mal esse talento, algumas vezes... mas nem sempre. Também levei alegria, proporcionei alguma reflexão, transmiti bons sentimentos. Mas, enfim, hoje procuro me preservar justamente porque reconheço que a palavra é uma arma. Estou numa fase contemplativa, reflexiva, quase zen. Defender o que penso me cansa e sempre concluo que é inútil. Absorvi totalmente o conceito da não resistência e deixo que as coisas fluam, naturalmente...sou um rio e estou fluindo...nenhuma palavra pode explicar isso, nem é necessário que alguém compreenda.
Obrigada ao meu amigo secreto. Seus e-mails são doces presentes que alegram meus dias. E entenda meu silêncio apenas como um sorriso de agradecimento vindo de alguém que já deixou de tentar entender ou explicar aquilo que palavra nenhuma entende ou explica.
enviada por Kapri
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
|