16/03/2006 23:05
AQUILO QUE FALTA
E falta sempre uma coisa,
um copo, uma brisa, uma frase.
E a vida dói quanto mais se goza
E quanto mais se inventa.
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)
Na minha infância, era comum minha mãe usar uma expressão ao me repreender. Ela sempre dizia: não inventa!. Assim mesmo, do jeito italianado que ela tem de falar. Não inventa servia para evitar qualquer problema futuro. Quando eu pensava em brincar de alguma coisa que certamente geraria uma bagunça infernal que eu não arrumaria depois, ela apelava: não inventa!. Quando eu pedia para convidar uns 2 ou 3 amigos para brincar em casa que, invariavelmente, se transformariam em 8, ela gritava: não inventa!. Quando eu imaginava que poderia construir uma casinha de bonecas com 2 salas, 3 quartos e uma cozinha com pia usando apenas uns pedaços de papel , tinta, tesoura e cola, ela esbravejava Não inventa!.
Mas eu inventava, dava um jeito de contornar a bronca porque meu desejo de mexer na realidade era grande demais. Por melhores que fossem meus brinquedos, por mais divertidos que fossem meus amigos, sempre faltava alguma coisa e aquilo que faltava, eu tinha que inventar. E fui crescendo assim, construindo cabanas de bambu e de mato nos terrenos baldios, levando ninhada de cachorrinhos recém-nascidos para criar em casa, escrevendo, desenhando, enfim inventando. E deixando minha mãe quase maluca.
Mais crescidinha, passei a inventar poemas, crônicas, músicas, coreografias. Meu desejo de criar não foi tolhido pelo não inventa da minha mãe, e com certeza ela não tinha mesmo essa intenção. Descobri o prazer de criar e vi que a criação era uma forma de interferir na realidade e uma tábua de salvação quando a realidade resolve nos pregar uma peça, e nos inventar alguma.
Nada de errado em criar, em ir atrás do que está faltando. Mas, talvez, essa minha natureza inventiva tenha se desviado dos caminhos da criatividade e tenha me levado a sempre prestar atenção àquilo que faltava e dar automaticamente o comando para ir em busca. E, como inventar o que falta é algo que faço desde sempre, muitas vezes preenchi os meus vazios com inventos para logo depois perceber que não eram reais. Se der um mergulho mais fundo vou chegar à conclusão que nem mesmo os vazios eram reais, pois nada estava faltando. Tudo estava perfeito e completo e eu deveria apenas ter me repreendido e dito a mim mesma: menina, não inventa!.
Acho que fomos condicionados a colocar nossa vida em eterna pendência, numa mistura confusa de desejo, esperança e insatisfação crônica. Nosso olhar se desvia do que temos de sobra e focaliza, em primeiro plano, aquilo que nos falta ou que pensamos que nos falta. Temos saúde e nosso corpo pulsa em equilíbrio, mas queremos experimentar prazeres extraordinários. Temos amor, mas desejamos os sobressaltos da paixão. Temos amigos com quem conversar, mas desejamos contatos com gente influente. Temos filhos lindos e saudáveis, mas queremos que sejam imbatíveis, que vençam qualquer competição.
E partimos em busca do que nos falta já que nos dói a falta que nos faz. E, como não encontramos (geralmente o que nos falta, falta ao mundo), simplesmente inventamos. Criamos objetos que satisfaçam nossos desejos. Brinquedinhos e inventos mirabolantes que nem sempre servem para alguma coisa além de alimentar nossa ilusão de que tudo está perfeito.
Dia seguinte, a brincadeira acaba e ainda sentimos falta. E sempre nos falta algo. Falta principalmente a capacidade de ver que já temos tudo. Falta a simplicidade de Álvaro de Campos para saber que a vida dói quanto mais se goza e quanto mais se inventa.
Não quero defender o conformismo e a desesperança, muito menos ver a vida como algo cheio de limitações que temos que aceitar para evitar o sofrimento. Mas hoje, passadas algumas buscas insanas e invenções desastrosas meu desejo mais profundo é o de viver em paz com aquilo que me falta, sabendo que nenhum lugar, pessoa ou objeto inventado pode ocupar o lugar vago, se é que este lugar realmente existe.
Não quero perder o brilho da menina que vivia inventando histórias, mas quero ter a certeza profunda de que aquilo que me faz falta, aquilo que realmente dói na alma como um vazio, eu não posso inventar e só posso encontrar dentro de mim.
enviada por Kapri
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
|