07/11/2006 14:56
Ser anti-social
Não adianta. Carrego esse estigma mesmo. Chata, metida, se achante, anti-social, sociopata.
Com essa onda de orkut, tenho reencontrado alguns amigos, muitos dos quais não via há quase (ai meu Deus!) 30 anos!! É sério, amigos que estudaram comigo no primário (que alías, nem existe mais, pelo menos com esse nome).
Amigos do tempo que eu ia à escola com minha saia de pregas azul- marinho, blusa branca de botões, meia 3/4, sapatinho boneca e rabo de cavalo com fita de cetim branca. Que lindinha!!!...Pois é, digamos que hoje eu esteja ligeiramente diferente quanto ao aspecto físico.
E meus amigos daquela época, ao que tudo indica, também estão. Outro dia recebi um scrap de um tal José Carlos, dizendo "não lembra mais de mim, sua orgulhosa?". Fui xeretar no orkut dele (ô nominho infeliz pra esse treco) e estava lá uma cara de meia idade, meio barrigudo, com cara de mais ou menos feliz com sua família ("espousa", filhos, cachorro). Lembrar dele? Claro que não!
Nem mesmo lembrei que estudou comigo um menino que se chamava Zequinha, que usava calção de tergal azul marinho e as mesmas meias e camisas brancas, do qual eu morria de inveja porque tinha relógio de pulso e eu não. Foi preciso ele refrescar bem a minha memória, bem mesmo. Depois disso vem aquele papo...Puxa, quanto tempo!...Quantos filhos, quantos maridos?...Você está bem e você engordou, hein!...Tem visto fulano?...
E fica nisso, nem dá pra ser diferente. O que há para conversar com alguém que a gente perdeu de vista lá atrás, que não sabe das nossas andanças, nossos tropeços, nossos momentos de alegria. Enfim, alguém que trilhou outro caminho e agora está longe demais. Estranho seria se esse reencontro resultasse numa amizade instantânea, aquela que você acrescenta água fervente e fica pronta em 2 minutos.
Como, diante desses reencontros súbitos patrocinados pelo google eu costumo ser apenas espontânea e não forçar uma familiaridade que não existe mais, sou normalmente considerata chata, metida, anti-social, sociopara, se achante.
Até aí tudo bem, nenhuma novidade. Falar o quê,fazer o quê?...Menos é mais. Salve-me Osho, please.
A Tati Bernardi escreveu um texto sobre isso. Penso igualzinha a ela. Inteligente essa menina!...Beijos a todos.
Adios amigos
Tati Bernardi
O que você faz com as pessoas que não quer mais?
Dia desses me ligou uma grande amiga do primário. Cheia de cobranças pro meu lado, que eu era uma desnaturada, como assim não tinha atendido ao telefonema dela na madrugada do dia anterior?
Há vinte anos ela era uma ruivinha magra, doce e que sempre dividia comigo a Maria-Mole (como é que eu podia comer isso!) no recreio. Havia se tornado uma mulher alta demais, que falava alto demais, gesticulava demais, ligava tarde demais, insistia demais na nossa amizade e agora ainda era modelete-manequim-atriz-promoter-organizadora de eventos. Mais da metade dos organizadores de eventos são pessoas que um belo dia pensaram hmmm, deixa ver o que eu gosto de fazer
eu gosto de ir a festas! Boa, vou trabalhar com isso. Não dá, sinto muito, eu ainda gosto da ruivinha do recreio, mas onde ela foi parar?
Outra que não me deixa em paz é a Paulinha, Paulona na verdade, porque acabou engordando uns 20 arrobas depois do ginásio. Nós éramos grudadas e fazíamos tudo juntas. O primeiro beijo aconteceu na mesma época, a primeira recuperação de física, as primeiras noites em claro chorando por algum super incrível macho de 13 anos. A gente se adorava tanto que tomava banho juntas na casa de praia que ela tinha no Guarujá (era chiquérrimo ir pra Enseada, lembra?) e uma ensaboava a outra, juro que sem a menor maldade.
Hoje em dia me culpa por ter ficado gorda e eu não, acho que ela pensa que se eu fosse realmente uma amiga de verdade, a teria acompanhado até nisso! Ela me liga toda semana com insinuações do tipo claro que ele te ligou, você é magra, claro que você não me chamou, você achou que eu não ia caber no carro. Tentei ajudar, ter paciência, mas a verdade é que ela se transformou num ser insuportável e eu não quero mais ser amiga dela. O que fazer? Como posso simplesmente abandonar minha melhor amiga do ginásio?
No colegial eu tinha duas melhores amigas: a Márcia e a Joana. Apesar da escola ser boa, eu estudava em um bairro mais simples com pessoas mais simples, afinal: minha família é mais simples. Até aí, nenhum problema.
Mas como nessa vida a gente anda pra frente, me formei numa faculdade bacana, trabalhei em bons empregos, ganhei uma graninha, conheci gente que me ensinou o que é um bom restaurante, bom filme, bom livro, boa viagem, mudei de bairro, de carro, de cabelo, de roupas, de opinão.
Enquanto isso, a Márcia se casou com o homem mais ogro do planeta, ele não a deixa trabalhar e adora ver que ela depende dele até pra soltar um pum. Ela nunca ouviu falar no Woody Allen, não tem carta de motorista e acha que tudo é pecado. A Joanna continua no mesmo emprego desde os 17 anos, odeia o emprego, mas aprendeu com o seu pai que trabalhar não é pra ter prazer, é pra comprar comida, seu último namorado era o líder de uma banda de pagode e batia nela de vez em quando.
Aí eu me pergunto, que assunto eu vou ter com essas pessoas? Sempre que faço um esforço sobrenatural pra aparecer por segundos em algum evento comemorativo, é com olhares de traidora, ela se tornou um ser humano melhor que sou recebida. Não quero mais passar por isso, mas como ignorar amigas tão antigas?
A maioria dos meus amigos de hoje foram grandes amigos do passado, que cresceram comigo, sofreram comigo, melhoraram comigo. São pessoas que eu admiro muito e que, mesmo com seus defeitos, me acrescentam, me fazem bem pra alma. Mas o que fazer com os outros que ficaram pra trás e se perderam com o tempo? O que fazer com os íntimos que se tornaram estranhos?
Não há muito o que fazer, a não ser sentir saudades de quando tudo era simples como dividir uma Maria-Mole e ingênuo como dividir um sabonete. Tenho muitas saudades daquelas amigas, mas tenho mais ainda de mim, que julgava menos e era muito mais feliz.
enviada por Kapri
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